quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Natal...

Para fechar o ano de 2010 no blog. taí o texto que escrevi pro jornal Eco Lumiar de dezembro do ano passado, sobre Natal e Ano Novo em Lumiar antigamente.
Boas Festas a todos!
Abs.



Natal em Lumiar – ontem e hoje

Em meados do século passado, em um Brasil ainda predominantemente agrário e onde nossa sociedade ainda não estava tão arraigada aos apelos consumistas, comemorava-se no Natal, realmente, o nascimento do Menino Jesus. Em Lumiar, então, que até meados da década de 1980 ainda se encontrava em situação de semi-isolamento, nem se fala... Não que os lumiarenses não conhecessem as tradições do Natal do hemisfério norte, como os pinheiros enfeitados com bolas coloridas e o Papai Noel, mas o foco principal desta data girava mesmo em torno do nascimento de Jesus.
Minha mãe, nascida e criada até a adolescência no 5º Distrito, conta que os Natais de sua infância em Lumiar eram simples, porém, muito significativos e, o mais importante, felizes. Não havia ceia de véspera (na noite do dia 24), e crianças e adultos dormiam cedo, o que era costume na vila, numa época em que Lumiar não tinha luz elétrica.
Os pequenos iam dormir ansiosos, na expectativa de que o Papai Noel deixasse presentes nos sapatinhos cuidadosamente colocados nas janelas – normalmente os presentes eram bem simples, em nada parecidos com os brinquedos industrializados de hoje: carrinhos de bebês em vime, bonecas de pano, diversos brinquedos em madeira etc. A figura do velhinho barbudo e de roupa vermelha não fazia parte do universo da minha mãe; ela conta que, pelo menos para ela, a figura do Papai Noel era mais a de uma entidade ou uma pessoa amiga que levava presente às crianças, sem que ela tivesse noção de como ele era fisicamente.
O almoço de Natal era modesto, devido às poucas posses de minha avó, principalmente depois de ficar viúva muito cedo, com oito filhos para criar; mas a refeição era bastante aguardada pelas crianças: ela servia galinha assada (de sua própria criação) e vinho, que misturava com água e açúcar, como um suco de uva, para não embebedar os filhos. Depois do almoço, minha mãe e meus tios visitavam vizinhos e parentes em Lumiar, para desejar-lhes um feliz Natal, e sempre ganhavam destes também um pouco de vinho.
Como a sociedade lumiarense, conforme já foi dito, vivia semi-isolada do distrito-sede (Nova Friburgo), a comunidade caprichava nos festejos cívicos e religiosos, de forma a aumentar o convívio social entre as pessoas e proporcionar-lhes diversão. Assim, além da comemoração simples, em casa, de cada família, boa parte da comunidade se unia em torno do Auto de Natal.
O Auto de Natal era organizado por D. Maria Mouta, professora primária, que mobilizava a escola de Lumiar, a Igreja e diversos membros da comunidade para ajudar: as pessoas podiam ser convocadas para atuarem na peça ou auxiliarem em tarefas diversas, como na confecção do figurino, na montagem do cenário etc. No início de dezembro já começavam os preparativos do Auto, que era encenado na véspera do Natal, no dia 24 de dezembro.
Minha mãe também se lembra de ajudar a colher musgo e limo na “curva da Maura” – onde hoje há o restaurante Casa Velha – para usar na peça. Folhas, flores, ramos e sementes de pinheiro, enfim, eram vários elementos que podiam ajudar a compor o cenário. A peça era encenada no “barracão” da Divina Providência, na rua do campo de futebol (onde hoje existe um horto), podendo a encenação começar ainda do lado de fora, na rua. Geralmente, conseguia-se um bebezinho recém-nascido para fazer o Menino Jesus; minha mãe, rindo com a lembrança, explica que o recém-nascido, além de ficar mais de acordo com o personagem, geralmente dormia o tempo todo quietinho e não “abria o berreiro” no meio do Auto, permitindo o andamento da peça.
O Auto de Natal era a única atividade que antecedia o Natal. No dia 25, as crianças ganhavam presentes e a família almoçava reunida. E não havia comemoração de Reveillon, mas sim, um almoço festivo, nos mesmos moldes dos almoços natalinos, para celebrar o primeiro dia do novo ano.
Conforme Lumiar foi crescendo e saindo da situação de semi-isolamento, foi também incorporando os hábitos dos Natais de hoje, das decorações natalinas ostensivas, do Papai Noel com roupa vermelha e longa barba branca, das ceias na véspera do dia 25 etc.
Essa comparação que faço do Natal de hoje com os Natais de antigamente foi feita não só para mostrar um pouco da rica história do 5º Distrito, como também para que pensemos no verdadeiro significado desta data, que anda um pouco esquecido por nós. Será que hoje, com tantos recursos, tanto progresso e tanta riqueza material, temos Natais mais felizes do que antigamente? Ou será que a felicidade reside mesmo na simplicidade, e não na fartura?
E que o Natal nos lembre sempre não só da entrega, do sacrifício de Jesus Cristo por nós, mas também – e principalmente – dos ensinamentos que Ele nos deixou de amor, paz e compaixão. Natal é caridade, fraternidade, união, a mais pura expressão do amor. E que possamos ir muito além do dia 25 de dezembro e levar para a nossa prática cotidiana, para os outros 364 dias do ano, os ensinamentos de Cristo, cuja passagem neste mundo deu origem a esta data tão bela e especial...



BOAS FESTAS A TODOS!

(Com agradecimentos especiais à minha mãe, Marinilce, tias, primas e todos aqueles que me ajudaram a resgatar um pouco da história de Lumiar na elaboração deste texto. E um agradecimento póstumo mais do que especial à minha avó materna, Dirce, por ter me ensinado o verdadeiro significado do Natal.)





Por Luciana Spitz – jornalista, professora e historiadora.

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