quarta-feira, 11 de março de 2009

Privatizando o banho de rio em Lumiar...

Foto: Cachoeira do Poço Feio, em Lumiar.
Autoria da foto: Renata Miranda.
Disponível em: http://www.panoramio.com.


Tenho acompanhado as notícias – blogs, Orkut, e-mails, TV, enfim, mídia em geral – sobre a crescente privatização dos rios e cachoeiras em Lumiar.
Como fui questionada para dar um parecer a respeito do tema – nem sabia que eu era importante assim, hehehe – tentei organizar as idéias e escrever um artigo sobre o assunto.
Como a maioria já deve saber, sou semi-“minhoca-da-terra”; não nasci em Lumiar, mas frequento o distrito a vida toda, já que minha família – Spitz – é da região.
Durante minha infância, ia muito tomar banho de rio no Poço Feio – quem é das antigas deve lembrar que a gente pedia licença pra passar dentro de um quintal pra ir até lá. Além do Poço Feio, como Lumiar era pouco povoada – e, consequentemente, quase não tinha poluição – também tomava banho de rio na Viga (ali onde tem a ponte de pedestres, de acesso ao Vale dos Peões), na "Ponte do Tio Carlnhos" (a ponte de carros que dá acesso ao Vale dos Peões - a gente pulava da ponte no rio ou então descia até ele por onde tem hoje um depósito de gás) e descia de bóia o Rio Boa Esperança (sim, aquele mesmo, que corta o distrito) ou o Macaé (do Poço Feio à Viga). Era uma delícia!
Na adolescência, além do Poço Feio, com irmãos e primos com carro, também pude ir ao Encontro dos Rios, Poço Verde, cachoeira do Indiana Jones – nome dado pela minha turma, diga-se de passagem – e outros.
Aos poucos fui vendo o fechamento do acesso aos rios e cachoeiras da região pelos proprietários que têm terras às suas margens. E foi com muita, mas muita tristeza mesmo, que vi o Poço Feio ser “privatizado”.
Como se não bastasse isso, também vi a deterioração do lugar, com as hordas de turistas porcos e mal-educados que procuram as cachoeiras no verão. A última vez que pisei no Encontro dos Rios – e isso já deve ter mais de dez anos – vi aquela farofada horrorosa, de gente com som alto ouvindo “funque” e pagodinhos depressivos, fazendo piquenique no meio das pedras e largando seu lixo em qualquer lugar. Depois de ver lata de cerveja boiando pelo rio, nunca mais quis voltar lá. Preferi guardar na memória a imagem do Encontro vazio, só com o som da cachoeira e dos pássaros e cigarras, numa época em que, mesmo no verão, era até possível (pra quem curte, claro) tomar banho nu, de tão sossegado que era o lugar.

Claro, vale lembrar que não são só os turistas que destroem o lugar: quem explora as margens dos rios para comércio muitas vezes modifica até o curso natural dos mesmos para fazer dinheiro. A falta de consciência ecológica é, infelizmente, generalizada, e a agressão ao ambiente muitas vezes parte de quem, por ter um vínculo afetivo ou de origem com o lugar, mais deveria preservá-lo...
Hoje estamos cada vez mais sem opção; das quatro, uma: ou se acha rio pago, ou fechado, ou “farofado”, ou ainda poluído.
Alguém aí, vendo o Rio Boa Esperança seco do jeito que está, acredita que dava para descê-lo de bóia? Tinha até campeonato de “descida do rio de bóia”, nos aniversários de Lumiar... e gente mais antiga do que eu deve lembrar do Poço do Engenho, localizado atrás do chalé, fundo e de água cristalina.
Na verdade, nos encontramos numa encruzilhada; os poucos lugares preservados só o são porque estão sendo fechados, poupados da “farofada geral” que se tornaram as cachoeiras ainda gratuitas de Lumiar. Mas, ao mesmo tempo, não podemos deixar que nos privem de ter acesso à toda essa beleza natural que, na verdade, deveria ser de todos, priorizando o bem comum – no caso, poder se refrescar nos rios em dias de calor.
Para decepção de alguns, eu confesso aqui que já entreguei os pontos. Não tomo um banho de rio ou cachoeira faz tempo... seja pela farofa, seja porque acho absurdo pagar para me refrescar – pra mim, é o mesmo que querer cobrar a minha respiração (é só o que falta, mesmo...). Enfim, me privei de curtir os rios e cachoeiras da região. Mas tenho muitas saudades daqueles tempos de liberdade da infância e adolescência, onde a gente não precisava pagar para se divertir e nem corria o risco de pegar doença num rio poluído.
Um grupo de pessoas está organizando para o dia 21 deste mês – Dia Mundial da Água – um evento em Lumiar (a partir das 11h, na Praça Carlos Maria Marchon, Centro) com música, poesia e diversas outras manifestações culturais, onde também haverá um protesto pelo fechamento do acesso aos rios locais. A motivação maior para o protesto foi o fechamento do acesso ao Poço do Gianinni, em Ribeirão das Voltas, neste mês.
Sugiro que aproveitemos o momento - oportunamente, Dia da Água - para, mais do que protestar, fazer uma reflexão sobre como fazer uso de nossas belezas naturais sem agredi-las. Dá para trocar o atual modelo de “turismo predatório” pelo turismo ecológico, de verdade? O que podemos fazer? Como conscientizar as pessoas a frequentar nossos rios sem polui-los?
Deixo a pergunta no ar, aberta ao debate de idéias... e peço desculpas pelo texto longo...

9 comentários:

  1. Bem meu nome é Danilo Joppert, sou amigo de todos em Lumiar, local onde frequentei durante 15 anos de minha vida e que tenho muitas saudades, não só do local como das pessoas legais e divertidas que conheci e algumas áté hoje tenho uma boa amizade.
    Desde que conheço Lumiar já existe isto de rio particular um dos primeiros a fechar as porteiras foi o Poço das Andorinhas que dava acesso ao Poço Quadrado , uma das melhores cachoeiras de Lumiar.
    Mas agora pelo que estou vendo esta demais...Até o Gianini fechado...Um dos ultimos poços limpo e perto da cidade...Aí já é demais.... tem um tempo que não apareço, mas prometo aparecer...Quando tiver uma boa aí me chamem..Hahahahaha Bjs

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  2. Muito bom o texto.
    Rodrigo Campos - CECNA

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  3. Solicito esclarecimentos aos senhores advogados:

    Até algum tempo atrás era legalmente proibido impedir alguém de acessar a beira de um rio.

    Será que a lei mudou e não estou sabendo?

    Quais os meandros da Lei no particular caso, para se impedir alguém de acessar a beira do rio?

    Att.

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  4. Irene responde pelos 2 anônimos acima .

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  5. A CACHOEIRA DAS ANDORINHAS FOI INVADIDA POR UM PM QUE FOI EXPULSO DA CORPORAÇÃO E VIVE POR LÁ AMEAÇANDO AS PESSOAS QUE TENTAM IR NA CACHOEIRA DAS ANDORINHAS. NEM OS MORADORES LOCAIS CONSEGUEM TER ACESSO A ESSE PARAÍSO. ALÉM DISSO O CARA FICA DESFILANDO COM ESPINGARDA CALIBRE 12 E COM PISTOLA NA CINTA. TODOS DAQUELA AREA JA FORAM AMEAÇADOS COM ARMA NA CARA.

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  6. Meu nome é Marcia e conheço Poço Feio,a muito tempo e acampei ali com amigos.E posso dizer que não era privatizado,inclusive a demarcação da fazenda ou sítio ali localizada,ficava acima das pedras,pois subíamos pelo canto,onde tinha uma cerca também demarcando a propriedade,mas Poço Feio ficava FORA da propriedade.Acima da pedra tinham umas pequenas piscinas naturais e íamos até onde ficava a tal cerca.Portanto foi um abuso e invasão;deste que se diz proprietário.Ele fez isto visando lucro,mas não se preocupou em manter limpo o paraíso natural que ali existia,digo assim pq.conheci Poço Feio quando era muito limpo,mas muito mesmo.Hoje ainda vou a Lumiar,mas não vou ali.Pois dói quando lembro o que era e o que se tornou.Posso afirmar que se moradores do local,nada fizerem infelizmente,chegará o dia em que para entrar em Lumiar terá que pagar.No Poço Belo tb era limpo,agora se você chegar na parte mais alta,onde tem uma piscina natural pequena,já pode sentir o cheiro de esgoto que vem de Boa Esperança,das casas de beira do rio .Eu fui até lá e verifiquei pessoalmente.Lamentável .

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  7. Com relação a definicao de posse do rio e também da margem de rio (isto é, até 15 metros depois do limite de enchentes ordinárias) pertence ao estado. Vah munido de advogado e policia e entre e divirta-se nos pocos de Lumiar (Vide decreto lei 9760/46)

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  8. O Poço quadrado era o lugar mais especial q frequentava, de tempos em tempos tento voltar lá, sem sucesso. Como pode-se fazer para população poder voltar a ter acesso a este lugar tão especial?

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  9. Bom texto, a primeira vez que fui a Lumiar tinha 20 anos e era nos anos 80 melhor fase da minha vida, poço feio era onde colocava minha barraca minhas roupas, panelas e algum rango, nessa época a noite sempre tinha um violão e vários amigos em volta da fogueira conversando e cantando as vezes seguindo a canção. Amigos por lá deixei mas não sinto saudades, hj voltarei mas sabendo que tudo que conheci um dia existiu e jamais vou esquecer. Hoje lamento que pela ganancia de uns a NATUREZA sofra e nos é tomado o direito de ir e vir, PROGRESSO, CIVILIZAÇÃO, ou tem outro nome ???

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