quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Inoubliable / Inesquecível...

No dia 19 de outubro último, dentro da programação do VI Encontro Comunitário Suíço-Brasileiro, parte da comitiva suíça visitou o distrito friburguense de Lumiar.

Eu, como representante – e descendente – das famílias Spitz e Marchon, tive a alegria de participar do evento. Foram momentos de alegria, congraçamento e muita, mas muita emoção. De verdade.

A comitiva – composta pela Societé de Musique de Treyvaux (Brass Band), por outros suíços e por autoridades suíças e brasileiras – chegou pouco depois das 10h da manhã e foi recepcionada por membros da comunidade em frente às duas igrejas de São Sebastião – a atual, inaugurada na década de 1980, e a histórica, cuja construção iniciou-se em 1893.

Dentro da pequena igreja histórica, aconteceu um dos momentos, para mim, mais bonitos do encontro. Atentos e muito educados, nossos convidados ouviram do pesquisador e presidente da Sociedade Musical Euterpe Lumiarense (SMEL), Manoel Antônio Spitz Sodré, uma pequena explanação sobre a história da Igreja de São Sebastião no distrito. Ao saberem que o local era importante na união dos colonos e de seus descendentes, ou seja, que ela é importante na história lumiarense, o grupo de Treyvaux pediu para cantar (a capella) uma música em homenagem aos primeiros colonos suíços da região.

Foi uma canção linda, cujo nome não me lembro, mas que me fez recordar toda a pesquisa que fiz sobre a história dos meus antepassados suíços. Fiquei ali, vendo aquele grupo de conterrâneos dos meus tataravôs e, emocionada, olhando aquelas pessoas em trajes típicos, pude imaginar os primeiros colonos suíços em Lumiar, trazendo em seus corações um misto de medo, alegria e fé neste novo lugar onde eles fincaram raízes em busca da felicidade. Lembrei-me dos relatos da difícil viagem pelo Atlântico; da decepção com as terras da colônia brasileira; das terríveis perdas de esposas, mães e filhos em partos feitos em casa ou por doenças, numa época carente de assistência médica; da saudade de seu país de origem e de todas as dificuldades de se viver numa terra estranha. E não consegui segurar o choro. Foi como se eu sentisse a presença dos meus antepassados ali, enquanto ouvia a canção bela e harmoniosa do grupo de Treyvaux. Lindo momento, que guardarei para sempre na memória e no coração.

Depois o grupo fez uma breve visita à atual Igreja de São Sebastião, onde todos rezaram juntos o pai-nosso – os brasileiros, em português, e os suíços, em francês; duas línguas diferentes, mas, por incrível que pareça, em total harmonia.

No caminho para a SMEL, percebi o encantamento de algumas senhoras suíças com a natureza lumiarense: as flores, os pássaros, a mata ao redor. Elas mostravam-se felizes e maravilhadas com o lugar. Foi interessante de se ver, e novamente imaginei o deslumbramento de meus antepassados ao se depararem com esta terra tão bonita.

Na centenária SMEL, os músicos de Treyvaux assistiram a um documentário sobre o 5º Distrito, a uma apresentação de crianças do curso de música (flauta doce) e doaram instrumentos musicais – ato muito importante para que a entidade possa refazer sua banda musical, que já foi bastante tradicional em Nova Friburgo, juntamente com as outras ainda existentes, como a Euterpe Friburguense e a Campesina.

Depois do almoço – prestigiado também pelo prefeito Heródoto Bento de Mello e alguns de seus secretários – os suíços foram brindados com uma inusitada e bela surpresa: fugindo ao roteiro previsto, as crianças das escolas municipais da região foram ao encontro dos visitantes, reunindo-se na Praça Carlos Maria Marchon e cantando o Hino de Nova Friburgo e a música “Cidade das Flores” a capella. Outra cena muito bonita e memorável para quem estava ali...

Voltando à programação, prefeito e comitiva suíça foram para o galpão da Ação Rural no início da tarde, onde foram recepcionados pelas mesmas crianças, que fizeram um corredor da entrada até o palco do local, também ao som da música “Cidade das Flores” e do Hino de Nova Friburgo. Foi um momento muito bonito também, que provavelmente ficará para sempre na memória de suíços e brasileiros presentes à festa.

Após a apresentação de teatro e dança por crianças do distrito – muitas delas, descendentes de colonos suíços –, o público pôde conferir uma bela apresentação da Brass Band de Treyvaux, que tocou desde canções clássicas de seu país até “Rock Around The Clock” (um sucesso de Bill Haley dos anos 50/60), colocando todos para dançar, inclusive o prefeito. A Brass Band finalizou sua apresentação tocando parte do Hino Nacional Brasileiro – acredito que tenha sido uma forma simpática de homenagear o belo país que estavam visitando e que acolhera seus conterrâneos há quase 200 anos. Nem mesmo a forte chuva que durou toda a tarde manchou esta festa tão bonita!

Antes de se despedir do 5º Distrito (a ida a São Pedro da Serra foi cancelada devido à chuva), a comitiva suíça ainda foi recepcionada na Vila Mozer, onde os visitantes puderam provar comidas e bebidas locais, como broa de banana, aipim cozido, bolo de fubá, cachaça e outras delícias. Foi o momento mais descontraído do passeio, quando suíços e suíço-brasileiros, descendentes dos primeiros colonos (eu, inclusive), cantaram e dançaram juntos, misturando cantigas em francês e em português com muita alegria. Muitos, como eu e até mesmo alguns visitantes suíços, foram às lágrimas, dando um forte tom de emoção ao evento.

Era visível a alegria e contentamento dos suíços com a calorosa acolhida dos lumiarenses naquela visita. Conversei com algumas senhoras (não conversei mais devido à timidez e ao meu fraco francês), como a Sra. Marie-Josephe Erly, que depois se despediram de mim com carinho e amizade. Se o lumiarense foi acolhedor para com o visitante suíço, este também, por sua vez, mostrou-se bastante receptivo a esta acolhida, o que foi fundamental para o sucesso da visita suíça ao 5º Distrito.

Os suíços foram embora às gargalhadas, em grandes capas de plástico improvisadas pela família Mozer como guarda-chuvas, para que pudessem embarcar nos ônibus sem se molhar muito com a chuva. E, com certeza, voltam para a Suíça com histórias divertidas e emocionantes para contar.

Nós aqui, também, ficamos com a lembrança destes momentos preciosos de alegria, confraternização e muita emoção. Inesquecíveis, ou, como diriam nossos amigos suíços, inoubliables...

Já não era sem tempo que os colonos suíços visitassem o distrito friburguense que mais tem descendentes dos primeiros colonizadores helvéticos de 1819. Corrigiu-se uma injustiça cultural e histórica com esta visita. E foi uma bela forma de comemorarmos os 120 anos de criação do 5º Distrito, fato que não foi esquecido pelos palestrantes. Os meus sinceros parabéns a todos aqueles (e eu sei que foram muitos!) que articularam esta linda visita dos suíços a Lumiar!

E esperamos que esta seja a primeira de muitas outras visitas de nossos co-irmãos de Fribourg ao distrito de Lumiar. No que depender da empolgação demonstrada pelos visitantes, o 5º Distrito deverá ser parada obrigatória nos próximos encontros suíço-brasileiros.

Realmente, inoubliable...



Os músicos da Brass Band de Treyvaux cantam em homenagem aos pioneiros colonos suíços na igrejinha de São Sebastião.
Crianças das escolas municipais dos distritos de Lumiar e São Pedro da Serra cantam para os suíços na Praça Carlos Maria Marchon.

Crianças das escolas municipais dos distritos de Lumiar e São Pedro da Serra recepcionam os suíços na Ação Rural.

Público lota a Ação Rural na visita dos suíços a Lumiar, tendo também a presença do prefeito Heródoto Bento de Mello.

Suíços e descendentes dos colonos suíços se confraternizam e cantam juntos músicas diversas na Vila Mozer.


Eu com as simpáticas artistas da Brass Band de Treyvaux, na confraternização da Vila Mozer.


(Fotos de Luciana Spitz - 19 out 2009.)




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